Mercúrio, Meio Ambiente e Saúde

Um guia para uma alimentação saudável

por: Wanderley Bastos & Izidro Sousa-Filho

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set/2026

O que é o Mercúrio e por que ele é um risco?

O mercúrio é um elemento químico que existe naturalmente no meio ambiente, especialmente pelas emissões vulcânicas, e está presente no ar, no solo e na água em várias formas químicas, mas a mais perigosa para a saúde é o metilmercúrio. As atividades humanas, como algumas indústrias e garimpo de ouro, assim como as emissões com o desmatamento e queimadas podem aumentar sua concentração na água e no solo.

Isso significa que, à medida que pequenos organismos são comidos por peixes maiores, a concentração de mercúrio aumenta, atingindo níveis mais altos nos peixes predadores (peixes que comem outros peixes, como tucunarés ou douradas).

As principais fontes pelas atividades humanas são:

  • Emissões industriais: A queima de carvão em centrais elétricas, mineração e processos industriais como a fabricação de cloro-soda liberam mercúrio para a atmosfera.

  • Queima de combustíveis fósseis: a queima de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural, também liberam mercúrio na atmosfera.

  • Produtos descartados: Baterias, lâmpadas fluorescentes, termômetros e outros produtos que contêm mercúrio podem liberá-lo para o meio ambiente se não forem descartados corretamente.

  • Mineração artesanal: A mineração de ouro em pequena escala utiliza mercúrio no processo de amalgamação que captura partículas finas de ouro, separando-o dos solos e sedimentos, potencializando liberações de grandes quantidades de mercúrio, nas fases líquida e vapor, para o solo e para a água.

  • Queima de vegetação: plantas podem absorver mercúrio na forma de gás na atmosfera, assim como absorvem o gás carbônico. Quando queimadas, elas voltam a liberar o metal no ar.

Uma vez nos rios, lagos e oceanos, o mercúrio inorgânico é transformado por microrganismos em metilmercúrio. O metilmercúrio é a forma mais tóxica e prejudicial do mercúrio.

Mercúrio usado em garimpos atinge peixes, que depois serão consumidos e a contaminação se propaga. Ilustração: Ana Clara Moscatelli

O mercúrio é um elemento encontrado na natureza, mas torna-se perigoso quando entra em contato com a água e as bactérias o transformam em metilmercúrio, tornando-se mais perigoso e passando a se acumular nos seres vivos, especialmente nos peixes — um processo conhecido como biomagnificação.

É neste ponto que começa um processo de concentração na cadeia alimentar:

  1. Bioacumulação: O metilmercúrio é absorvido pelo plâncton e pelos pequenos peixes. À medida que esses organismos o ingerem, o mercúrio se acumula em seus tecidos ao longo de sua vida.

  2. Biomagnificação: Os peixes maiores e predadores se alimentam dos peixes menores. Com cada passo na cadeia trófica, a concentração de mercúrio aumenta exponencialmente. Por isso, nos ambientes de água doce espécies como os grandes bagres e no ambiente marinho espécies como o tubarão, peixe-espada e o atum, que se encontram no topo da cadeia alimentar, apresentam os níveis mais altos de mercúrio.

O símbolo Hg tem sua origem na palavra em latim Hydrargyrum, que quer dizer prata líquida.

O mercúrio é considerado um poluente global.

  • O monitoramento realizado na bacia do Alto Rio Madeira mostra que o nível de mercúrio na água é muito abaixo, média de 9 ng L⁻¹ (nanogramas por litro).

  • A legislação brasileira (CONAMA 357/2005) estabelece o limite máximo de 200 ng L⁻¹ destinadas ao consumo humano após tratamento.

Mercúrio na Água na Bacia Hidrográfica do Alto Rio Madeira

Os resultados de nossos estudos no monitoramento de longo prazo (2008-2025) indicam que, apesar da presença histórica de garimpo de ouro na região, somados aos constantes desmatamentos e queimadas, o sistema aquático tem demonstrado resiliência, e as concentrações de mercúrio na água permanecem dentro da faixa de segurança definida pelos órgãos reguladores.

Atenção!

Mercúrio nos Peixes

Bacia Hidrográfica do Alto/Médio Rio Madeira

O mercúrio presente no peixe está em grande parte (cerca de 80%), na sua forma mais tóxica (Metilmercúrio).

O reconhecimento dos efeitos tóxicos do metilmercúrio consolidou-se a partir do grave episódio conhecido como Doença de Minamata, no Japão, na década de 1950.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA-IN 160/2022) estabelece limites máximos de mercúrio total em peixes, alinhados a diretrizes internacionais. Para consumo seguro de pescado no Brasil.

Atenção! Limites ANVISA

Os nossos estudos, apontam que, de forma geral, a maioria das espécies de peixes da bacia do Alto/Médio Rio Madeira permanece dentro dos limites recomendados.

Pesquisa Científica

Clique na imagem para acessar o estudo.

Riscos para a Saúde Humana e Populações Vulneráveis

O mercúrio pode se concentrar na mucosa bucal, glândulas salivares, aparelho respiratório e pulmões, sangue, fígado, rins, cérebro, ossos e medula óssea. Este metal tem a capacidade de danificar o sistema nervoso central, resultando em mudanças frequentes de humor, alterações na memória, dor de cabeça e enxaqueca, tontura, delírios e alucinações, problemas cognitivos, como dificuldade de concentração e perda de memória, bem como anormalidades nos reflexos e funções motoras.

Além disso, o mercúrio pode causar problemas graves e permanentes, como bronquite, edema pulmonar, salivação excessiva, gosto metálico na boca, dor abdominal, vômito, diarreia, coma e morte. Este metal também possui a capacidade de atravessar a barreira placentária e atingir fetos em desenvolvimento em mulheres gestantes, causando grandes danos a ambos, mãe e bebê.

Por fim, ele pode afetar o sistema cardiovascular, levando a problemas como hipertensão e doenças cardíacas.

A exposição crônica ao metilmercúrio pode ter efeitos adversos na saúde, especialmente no sistema nervoso. O metilmercúrio é uma potente neurotoxina que pode danificar as células cerebrais e comprometer a função cognitiva. Embora a população geral possa consumir peixe com moderação, existem grupos de alto risco que devem ser extremamente cautelosos.

Os principais riscos da exposição ao mercúrio incluem:

  • Dano neurológico: Pode causar problemas de coordenação, visão, audição e fala. Em casos graves, pode provocar convulsões.

  • Dano renal: A exposição prolongada a vapores de mercúrio pode afetar a função renal.

  • Risco para o desenvolvimento infantil: A exposição pré-natal ou nos primeiros anos de vida é a mais perigosa. O mercúrio pode danificar o sistema nervoso em desenvolvimento dos fetos e das crianças pequenas, afetando a aprendizagem e as habilidades motoras.

Devido a esses riscos, organizações como a FDA, a EPA e a FSAI estabeleceram diretrizes rigorosas para o consumo de peixe, especialmente para os seguintes grupos:

  • Mulheres grávidas ou que planejam engravidar: Seu consumo deve ser limitado a peixes com baixo teor de mercúrio. A FDA recomenda consumir entre 230 g a 340 g por semana de espécies de peixes com variedades baixas em mercúrio e evitar completamente os peixes com níveis altos.

  • Mulheres em período de amamentação: As recomendações são semelhantes às das grávidas, já que o mercúrio pode ser transferido através do leite materno.

  • Crianças pequenas: Seu sistema nervoso é particularmente sensível. Aconselha-se que consumam porções menores de peixes com baixo teor de mercúrio e evitem os de alto teor.

A dose de referência da EPA’s Integrated Risk Information System (IRIS) para o mercúrio é de 0,1 microgramas por quilograma de peso corporal por dia. Superar este limite de forma habitual pode gerar riscos a longo prazo, daí a importância de calcular e monitorar nosso consumo.

Concentração de Mercúrio nos Peixes

Bacia Hidrográfica do Alto/Médio Rio Madeira

Carnívoros

Os peixes carnívoros, ou seja, que comem outros peixes têm níveis de mercúrio mais elevados e por isso, devem ser evitados o consumo em maiores quantidades pela população em geral.

Matrixã (Brycon amazonicus)

Curimatã (Prochilodus nigricans)

Sardinha-comprida (Triportheus auritus)

Os exames do laboratório (Programa HidrobioGeoQuímica) mostraram que os peixes que mais acumularam o metilmercúrio no corpo foram os carnívoros. Abaixo estão listados os peixes não-carnívoros que ultrapassaram 0,5 µg/g e os carnívoros que ultrapassaram 1,0 µg/g em média.

Apapá (Pellona castelnaeana)

Não-carnívoros

Os peixes não-carnívoros, ou seja, que não comem outros peixes e se alimentam de algas, de frutas e sementes que caem no rio, têm níveis de mercúrio mais baixos e por isso, podem ser consumidos em maiores quantidades pela população sensível (mulheres gestantes, idosos e crianças).

Piramutaba (Brachyplatystoma vaillantii)

Cachorra-facão (Rhaphiodon vulpinus)

Piracatinga (Calophysus macropterus)

Barba-chata (Pinirampus pirinampu)

Filhote (Brachyplatystoma filamentosum)

Babão (Brachyplatystoma platynemum)

Tucunaré (Cichla pleiozona)

Imagens fora de escala.

Imagens fora de escala.

Importante

  • O pescado é uma fonte essencial de proteína para as populações ribeirinhas da bacia do Rio Madeira, assim como de toda a Amazônia.

  • Para evitar a contaminação de mercúrio no feto, a mulher gestante precisa evitar de se alimentar de peixes carnívoros durante a gestação

  • A avaliação de mercúrio em peixes tem que ser constante e é fundamental que o monitoramento seja permanente em toda a Amazônia.

  • Espécies no topo da cadeia alimentar (Carnívoros) tendem a apresentar concentrações mais elevadas.

  • O monitoramento científico permite acompanhar quais espécies específicas exigem maior cautela no consumo.

O envenenamento por mercúrio devido ao consumo de peixe é raro, a menos que se consumam grandes quantidades de espécies altamente contaminadas, mas o excesso de mercúrio pode prejudicar O sistema nervoso central, pelo fato do metilmercúrio ser neurotóxico. Por outro lado o mercúrio na sua forma química inorgânica, sendo inalado constantemente os seus vapores ocorrerá danos aos rins, os pulmões e o sistema cardiovascular.

Felizmente, o corpo humano consegue eliminar o metilmercúrio gradualmente. Estima-se que sua meia-vida seja de cerca de 70 ou 80 dias, portanto, se tivermos uma dieta inadequada, reduzir a ingestão de peixes em grandes quantidades faz com que os níveis sanguíneos diminuam em poucos meses.

Importante

  • O metilmercúrio se acumula mais em peixes carnívoros de grande porte devido à biomagnificação na cadeia alimentar.

  • Grupos vulneráveis, como gestantes e crianças, devem evitar espécies carnívoras.

  • Consumir peixes não-carnívoros é a opção mais segura.

A atitude mais sensata é evitar o medo extremo e continuar desfrutando dos peixes. Ao escolher peixes pequenos e variados e limitar o consumo de grandes predadores, alcançamos o equilíbrio perfeito entre nutrição e segurança. Os benefícios dos ácidos graxos ômega-3 para o coração e o cérebro são tão potentes que não comer peixe de jeito nenhum seria mais arriscado do que consumi-lo com moderação.

Sintomas de Envenenamento e Riscos Gerais

Comprimento, Peso e Concentração de Hg

Acesse as duas tabelas (Carnívoros e Não-Carnivoros) onde apresentam um sumário dos valores do comprimento padrão (cm), peso total (g) e concentração de mercúrio (µg/g) nos peixes da Bacia Hidrográfica do Alto/Médio Rio Madeira no período de 2008 a 2026.

Utilize a ferramenta Calculadora de Exposição para estimar sua exposição pessoal e garantir que seu consumo se mantenha dentro dos limites seguros.

Calcule sua Exposição

Consumo de Peixe

O peixe é uma fonte saudável de nutrientes, mas alguns tipos contêm altos níveis de mercúrio.

Utilize esta ferramenta para estimar sua exposição pessoal e garantir que seu consumo se mantenha dentro dos limites seguros.

Consulte as tabelas com os valores médios de Hg nos peixes não-carnívoros e carnívoros da Bacia Hidrográfica do Alto/Médio Rio Madeira.

Cerca de 80% do mercúrio total nos peixes está na forma de metilmercúrio.

Tabelas de Valores Médios de MercúrioTabelas de Valores Médios de Mercúrio

Tabelas

Status de Consumo

Indica se o seu nível de exposição ao mercúrio está abaixo ou acima do limite de referência de segurança recomendado pela FDA, que é de 0.1 µg/kg de peso corporal por dia.

Comparativo de Consumo

Traduz sua exposição ao mercúrio em um comparativo visual. Mostra se seu consumo excede ou não os limites seguros para a população geral e para populações sensíveis, como mulheres grávidas ou crianças.

Exposição Semanal (µg/semana)

O total de microgramas (µg) de mercúrio que seu corpo absorve por semana, com base na quantidade e no tipo de peixe que você consome.

Parâmetros

Concentração de Mercúrio Total no peixe = 0,1 µg/g

Conversão de mercúrio total para metilmercúrio = 0,1 * 0,8 = 0,08

Seu peso corporal = 70 kg

Consumo semanal = 200 g/semana

Dose de referência = 0,1 µg/kg/dia

Limite seguro de consumo semanal =

0,1 µg/kg/dia * 70 kg * 7 dias = 49 µg/semana

Status do consumo

Exposição semanal ao mercúrio é menor que Limite seguro de consumo semanal

Dentro do limite seguro

População geral

Exposição semanal ao mercúrio:

0,08 µg/g * 200 g/semana =

16 µg/semana

16 / 49 = 0,326

Seu consumo é 33% do limite da população geral

População sensível

Considerando a metade da dose de referência para o limite seguro de consumo semanal sensível:

(0,1 / 2) µg/kg/dia * 70 kg * 7 dias =

24,5 µg/semana

16 / 24,5 = 0,653

Seu consumo é 65% do limite para população sensível

Fórmulas e Exemplo

Recomendações

Nos nossos estudos conclui-se que, embora o mercúrio seja um fator de atenção ambiental na região da Bacia Hidrográfica do Alto/Médio Rio Madeira, os valores médios anuais em todas as matrizes estudadas (água, sedimento, plantas aquáticas e peixes) sugerem, no período recente de monitoramento de longo prazo (2008-2025), uma tendência de estabilidade.

A continuidade do monitoramento é fundamental para garantir a segurança alimentar da população que depende do peixe como fonte proteica. Como recomendação geral, a população deve buscar informações junto aos órgãos de saúde locais e acompanhar os resultados das pesquisas científicas sobre a qualidade do pescado da região, especialmente quando se trata de peixes carnívoros de grande porte.

Estaremos sempre atualizando nossa página.

Consumo de Peixe Seguro e Sustentável

A solução não é parar de comer peixe, mas fazê-lo de forma inteligente. O peixe continua sendo um alimento muito benéfico para a saúde, e a chave está em escolher as espécies corretas e controlar as porções. Aqui oferecemos um guia prático:

  1. Opte pela variedade e tamanho: Opte pela variedade e tamanho: Varie os tipos de peixe que você consome para não concentrar a exposição a uma única espécie. Priorize os peixes não carnívoros que geralmente têm menos mercúrio.

  2. Evite os grandes predadores: Evite os grandes predadores: Limite ou evite completamente o consumo de peixes com níveis muito altos de mercúrio.

  3. Consulte os avisos locais: Alguns peixes capturados em lagos e rios podem ter avisos de consumo específicos devido à contaminação local. Informe-se sobre os avisos da sua região.

  4. Use a calculadora: Utilize para estimar sua exposição pessoal ao mercúrio. Ao inserir os dados, você poderá ter informações sobre sua dieta.

O consumo de peixe é um ato que nos conecta com os rios, lagos e oceano e, ao mesmo tempo, com os problemas ambientais que os afetam. Ao estarmos conscientes do impacto da contaminação por mercúrio, não apenas protegemos nossa saúde, mas também nos tornamos defensores de um ecossistema aquático terrestre e marinho mais limpo e sustentável. A chave está no conhecimento e no poder de escolher, por um futuro mais saudável para todos.

Referências

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Munduruku, A. K., Ana Claudia Santiago de Vasconcellos, Claudeth Sau Munduruku, Daniel Munduruku, Deuziano Sau Munduruku, Gilmara Akay Munduruku, Honesio Dace Munduruku, Jairo Saw Munduruku, Luciane Saw Munduruku (Beka), Maria Cristina Troncarelli, Maurício Yori Munduruku, Paulo Cesar Basta, and Rozeninho Saw Munduruku. (2021). Consequências do Mercúrio na Saúde Humana e no Meio Ambiente. https://www.epsjv.fiocruz.br/sites/default/files/files/LIVRO_Mercurio_Saude.pdf

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Dr. Wanderley Bastos

Professor Titular no Departamento de Biologia da Universidade Federal de Rondônia (UNIR)

Izidro Sousa-Filho

Pesquisador Colaborador - Lab. BioGeoQuímica Ambiental WCP (UNIR)

Autores

Realização

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